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quarta-feira, 15 de julho de 2020

CASO MIGUEL 08 > M P de Pernambuco denuncia Sari

 Sarí Corte Real é primeira-dama de Tamandaré — Foto: Reprodução/TV Globo


 Miguel Otávio tinha 5 anos e morreu ao cair do edifício em que sua mãe trabalhava como empregada doméstica, no Recife — Foto: Reprodução/TV Globo


Mirtes Renata é mãe de Miguel Otávio, que caiu do 9º andar de um edifício de luxo no Recife Foto: Reprodução/TV Globo

Publicado originalmente no site G1 PE, em 14 de julho de 2020 

Caso Miguel: Ministério Público de Pernambuco denuncia Sari Corte Real à Justiça por abandono de incapaz com resultado de morte

Na denúncia, enviada nesta terça (14), promotor de Justiça incluiu artigos do Código Penal Brasileiro que agravam as penas pôr o crime 'ter sido contra criança em meio à conjuntura de calamidade pública'.

Por G1 PE

O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) denunciou, nesta terça-feira (14), a primeira-dama de Tamandaré, Sari Corte Real, por abandono de incapaz com resultado de morte, combinado com artigos do Código Penal Brasileiro que agravam as penas por o crime "ter sido contra criança em meio à conjuntura de calamidade pública", na pandemia da Covid-19. Com isso, o inquérito sobre a morte de Miguel Otávio segue para a Justiça (veja vídeo acima).

Sari Corte Real estava responsável pelo menino de 5 anos quando ele, que é filho da sua ex-empregada doméstica, caiu do 9º andar de um prédio de luxo no Recife (veja vídeo abaixo). A mãe da criança, Mirtes Souza, havia saído do apartamento para passear com a cadela da família dos patrões.

O MPPE recebeu o inquérito policial no dia 3 de julho e tinha o prazo de 15 dias para analisar os autos da investigação e tomar uma decisão. Por meio do promotor de Justiça Criminal Eduardo Tavares, a denúncia foi apresentada à 1ª Vara de Crimes contra a Criança e Adolescente da Capital.

Procurada pelo G1, a defesa de Sari Corte Real informou, por telefone, que vai se pronunciar somente após ter acesso à denúncia do MPPE.

Por meio de nota, o advogado de Mirtes Renata Souza afirmou que a mãe de Miguel recebe "auspiciosamente a notícia do oferecimento da denúncia pelo delito de abandono qualificado contra Sari Corte Real". A defesa de Mirtes disse, ainda, que o empenho para dar celeridade aos processos de natureza criminal do TJPE durante a situação de emergência sanitária da Covid-19 "se refletirá, também, nos autos do processo criminal" em questão".

Na segunda (13), parentes e amigos da família de Miguel fizeram uma passeata pelas ruas do Centro do Recife para pedir que o Ministério Público de Pernambuco desse atenção ao caso. O grupo saiu da Praça da República em direção ao MPPE, na Avenida Visconde de Suassuna, em Santo Amaro, no Centro da capital.

Justiça

Por meio de nota, o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) informou que a denúncia contra Sari Corte Real seguiu para a 1ª Vara de Crimes contra a criança e o Adolescente da Capital.

Ainda segundo o TJPE, o magistrado José Renato Bizerra terá dez dias para informar se vai acatar a denúncia. Esse é o prazo regulamentar, segundo a legislação em vigor. Caso ele aceite a denúncia, a ré será citada para apresentar a defesa.

Miguel caiu do 9º andar do edifício Píer Maurício de Nassau, no bairro de Santo Antônio, no Centro do Recife, no dia 2 de junho. A mãe dele, Mirtes Souza, o deixou com a ex-patroa para passear com Mel, a cadela da família que a empregava (veja vídeo acima).

No dia da morte de Miguel, Sari foi presa em flagrante por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. Em 1º de julho, ela foi indiciada pela polícia por abandono de incapaz que resultou em morte. Esse tipo de delito é considerado "preterdoloso", quando alguém comete um crime diferente do que planejava cometer.

Segundo a polícia, a criança saiu do apartamento de Sari para procurar a mãe e foi até os elevadores do condomínio. Imagens das câmeras de segurança mostram que, por pelo menos quatro vezes, a primeira-dama de Tamandaré conseguiu convencer Miguel a sair do elevador social e de serviço (veja vídeo acima).

Por meio de perícias, o Instituto de Criminalística de Pernambuco (IC) constatou que Sari Corte Real acionou a tecla do elevador que dá acesso à cobertura às 13h10, saindo do elevador em seguida. O laudo contradiz a versão dada pelo advogado de defesa de Sari.

No 9º andar, Miguel seguiu em direção a um corredor e parou defronte à janela da área técnica, escalou um vão e alcançou uma unidade condensadora de ar. Miguel tinha 1,10 metro e a janela, 1,20 metro. Marcas das sandálias que a criança usava atestaram que ele ficou em pé na condensadora.

Para descer de lá, Miguel pisou em um segundo equipamento do mesmo tipo e se dirigiu a um gradil que tem função estética. A criança escalou as grades e, ao chegar ao quarto "degrau", se desequilibrou e caiu.

A perícia descartou a hipótese de que alguém estivesse com a criança no 9º andar. Para isso, foi calculado o tempo em que o garoto saiu do elevador e caiu no térreo: 58 segundos. Também não havia vestígios de outra pessoa no corredor em que a criança entrou.

Depois da tragédia, veio à tona uma irregularidade na prefeitura de Tamandaré, envolvendo o marido de Sari, o prefeito Sérgio Hacker (PSB). Mirtes e a mãe dela, Marta Santana, trabalhavam como domésticas para a família do prefeito, mas eram pagas pela prefeitura.

No dia 2 de julho, o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) determinou o bloqueio parcial dos bens do prefeito e secretária de Educação, Maria da Conceição Cavalcanti.

No dia 1º de julho, o Ministério Público de Pernambuco entrou com uma ação para que o prefeito responda por improbidade administrativa. Desde a morte de Miguel, a mãe e avó do menino contaram não ter recebido um centavo sequer. A advogada trabalhista Karla Cavalcanti afirmou que o caso foi judicializado.

A reportagem procurou o prefeito, que afirmou, por meio de nota enviada no dia 2 de julho, que não foi comunicado oficialmente da ação judicial e que vai recorrer da determinação de indisponibilidade de bens, porque considera uma medida "completamente desnecessária".

Auxílio emergencial

O nome de Sari Gaspar Corte Real aparece no portal Dataprev após um pedido de auxílio emergencial, benefício concedido durante a pandemia provocada pelo novo coronavírus.

Segundo o Dataprev, o auxílio emergencial foi solicitado em 14 de maio. O portal recebeu o pedido no dia seguinte. Os dois filhos de Sari, de 6 e 3 anos de idade, estão cadastrados como parte do grupo familiar. A defesa da primeira-dama de Tamandaré informou, por telefone, que a solicitação de auxílio emergencial feita em nome dela é uma fraude.

Homenagens

O caso ganhou repercussão nacional, com manifestações de políticos e artistas na internet e criação de um abaixo-assinado virtual com mais de 2,5 milhões de assinaturas pedindo justiça por Miguel.

No dia 12 de junho, durante um ato em frente ao prédio de onde Miguel caiu, manifestantes levaram cartazes com pedido de justiça e caminharam até a delegacia onde o caso foi investigado. Eles pediram que a ex-patroa da mãe do menino fosse punida por homicídio doloso, quando há intenção de matar.

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com/pe

quinta-feira, 2 de julho de 2020

CASO MIGUEL 07 > Sari é indiciada por abandono de incapaz...

Polícia indicia patroa por abandono de incapaz na morte do menino Miguel

Publicado originalmente no site G1 PE, em 1 de julho de 2020  

Caso Miguel: Sari Corte Real é indiciada por abandono de incapaz que resultou em morte

Segundo polícia, mesmo não tendo a intenção de matar o menino, ex-patroa da mãe do garoto, intencionalmente, o deixou no elevador do edifício. Pena pode ser de quatro a 12 anos de prisão.

Por Pedro Alves, G1 PE

A primeira-dama de Tamandaré (Litoral Sul de Pernambuco), Sari Gaspar Corte Real, foi indiciada por abandono de incapaz que resultou em morte. Ela é a ex-patroa da doméstica Mirtes Renata, mãe do menino Miguel Otávio, de 5 anos, que morreu após cair de uma altura de 35 metros num prédio de luxo, no dia 2 de junho. No dia da morte, o menino havia sido levado pela mãe ao trabalho, no apartamento de Sari.

O inquérito policial foi concluído nesta quarta-feira (1º). De acordo com o delegado Ramon Teixeira, responsável pela investigação, a moradora do prédio cometeu um "crime preterdoloso". A pena pode ser de quatro a 12 anos de prisão

O termo "preterdoloso" refere-se ao caso em que o indiciado pratica um crime diferente do que havia inicialmente projetado cometer.

No dia da morte, Miguel entrou várias vezes nos elevadores do prédio, sendo retirado por Sari. Ele procurava a mãe, que tinha saído para passear com o cão da família de primeira-dama.

Em uma delas, a ex-patroa da mãe do garoto apertou o botão da cobertura do edifício e deixou a criança sozinha. O garoto foi até o 9º andar e caiu, depois de subir em uma área onde ficam equipamentos de ar-condicionado.

Ramon Teixeira disse que a conduta de permitir o fechamento da porta do elevador foi dolosa, mesmo que Sari não visualizasse a possibilidade de que sua conduta resultaria na morte da criança.

As informações foram repassadas em coletiva de imprensa transmitida pela internet, nesta quarta. Participou, também, o perito do Instituto de Criminalística (IC) André Amaral.

O delegado disse que a decisão foi tomada, também, porque Sari Corte Real sequer acompanhou a movimentação do elevador pelo visor que fica no andar. Ela retornou diretamente ao apartamento, onde estava fazendo as unhas com uma manicure.

"Ela não fez o acompanhamento, ela própria admite isso. A isso, somados a outros elementos de prova, como o depoimento da manicure, de que a moradora retorna ao seu apartamento para retomada dos serviços de manicure, o tratamento e embelezamento de suas unhas. Frases consignadas nos autos de que não teria responsabilidade sobre a criança, que deixou a criança ir passear. Uma infinidade de elementos de convicção reunidos que nos fez considerar o dolo de abandonar", declarou o delegado.

Ainda segundo Ramon Teixeira, o abandono de incapaz ocorreu de forma dolosa, com intenção, por Sari. O resultado da morte, no entanto, poderia ter acontecido não apenas pela queda, mas por várias outras possibilidades de risco no prédio.

O delegado disse que ao deixar Miguel sozinho no elevador, Sari, inclusive, infringiu uma lei municipal, que proíbe a presença de menores de dez anos desacompanhados nesse tipo de transporte.

"A criança, da qual a gente tanto falou, tinha 5 anos de idade, ela sequer poderia ficar desacompanhada no elevador. Pelo acervo probatório dos atos, teve, sim, uma etapa de cogitação. Teria ocorrido por uma irritação ou cansaço de retirar o menino do elevador. Sete vezes, segundo ela. Duas em um outro elevador, que não possui imagens", afirmou.

Uma perícia feita pelo IC constatou que Sari Corte Real, momentos antes da morte de Miguel, acionou a tecla da cobertura, saindo do elevador em seguida.

O laudo contradiz a versão dada pelo advogado de defesa de Sari. Segundo o laudo, o menino criança chegou a acionar a tecla de alarme antes chegar ao 9º andar, de onde caiu. A ocorrência foi considerada um acidente pelos peritos.

O delegado, por sua vez, afirmou que há três hipóteses para esse fato. A primeira seria a simples simulação do ato de pressionar o botão, como disse a indiciada. A segunda seria o pressionamento do botão, mas sem resposta do sistema, já que, segundo depoimento da própria Sari à polícia, ocorre frequentemente nos elevadores do prédio.

A terceira seria o pressionamento e acionamento efetivo do elevador para a cobertura. Entretanto, a perícia mostra que, em momento algum, o elevador chega a esse andar.

O perito André Amaral informou que o laudo do Instituto de Criminalística confirma que o caso foi um acidente e que não houve agência de nenhuma outra pessoa na morte de Miguel, a partir do momento em que ele fica sozinho no elevador.

"Verificamos que, naquele andar, a janela estava aberta e, mesmo tendo 1,10m, ele teve acesso. uma criança de até 90 cm conseguiria fazer aquela escalada. Estivemos mais duas vezes no local, com total de cinco peritos no local, mais cinco no IC, fazendo cruzamento das informações. Conseguimos visualizar a dinâmica do evento em si e perceber o tempo de queda da criança. Desde a saída do nono andar até a queda, levou em torno de 58 segundos, que fizeram que a gente considerasse inviável outra pessoa participar do evento", declarou o perito.

Cronologia dos fatos

A cronologia dos fatos começa às 13h05, quando Mirtes passeava com o cachorro pela pista do edifício, mexendo no telefone celular, e termina às 13h27, já depois da queda, quando o menino já está sendo socorrido. Às 13h06, Miguel entra no elevador social e Sari está bem próxima dele. O menino passa o dedo pelo painel e aperta o 5º andar e, em seguida, também aperta o botão do 4º andar.

A mulher segura a porta e a filha aparece nas imagens, do lado de fora. Miguel também pressiona o botão de alarme no elevador. Sari o chama mais vezes para sair do local, o menino obedece e ela o acompanha. Às 13h07, o menino entra no elevador de serviço e a mulher segura a porta, pelo lado de fora, enquanto aparenta telefonar para alguém.

O menino pressiona cinco vezes o mesmo botão, que aparenta ser o do 5º andar. Ele aperta três vezes o botão do alarme e a mulher parece perguntar algo a ele. Às 13h08, Miguel aparenta pressionar o botão do 9º andar, tecla logo acima da do 5º andar. Sari gesticula com a cabeça, como se chamasse o menino para sair do elevador, e ele parece obedecer. A mulher segura a porta corta-chamas e permite que passe por ela, seguindo logo atrás dele.

Às 13h08, o elevador de serviço para no 9º andar. Nesse momento, Mirtes, a mãe de Miguel, já está fazendo o caminho de volta com o cachorro da então patroa. Miguel entra no elevador social e Sari, segurando a porta com uma mão, aparenta tentar telefonar para alguém. Ele pressiona o botão do 5º andar, se olha no espelho e, às 13h09, sai do elevador, acompanhado por Sari. O elevador de serviço, que seguia parado no 9º andar, desce para o 5º e a porta se abre.

Às 13h10, Miguel entra novamente no elevador social e pressiona o botão do 9º andar. Sari vem correndo atrás, segura a porta com a mão e ordena que ele saia, apontando para o lado de fora. Ele obedece ao comando da mulher e sai correndo do elevador. Ele, em seguida, aparece correndo logo após abrir a porta corta-chamas e entra mais uma vez no elevador de serviço, cuja porta já se estava aberta no 5º andar.

Ainda às 13h10, Miguel se dirigindo ao painel do elevador, e Sari chega logo em seguida. O menino coloca ambas as mãos no painel do elevador, sobre vários botões, e aparenta apertar a tecla do 5º andar e, em seguida, o 8º e o 9º andares. A mulher retém a porta do elevador, pelo lado de fora, e observa a movimentação da criança. O menino aperta a tecla do alarme duas vezes e mostra a língua para a mulher, que por sua vez aponta o dedo indicador para ele.

Logo em seguida, Sari aparenta pressionar o botão "C", tecla mais alta ao lado direito do painel. Ela recua, retira a mão e permite o fechamento da porta do elevador, indo em direção à porta corta-chamas. Miguel, no elevador, aparenta pressionar as teclas do 15º, 19º e 20º andares. A porta se fecha e possível observar que os sinais luminosos do 2º, 9º, 15º e 20º andares estão acionados.

O elevador desce até o 2º andar e, às 13h11, a porta se abre no 2º andar do edifício. Miguel olha para o lado de fora, mas permanece parado no interior do elevador. A porta se fecha novamente. Miguel parece pressionar o botão de alarme do elevador. É possível visualizar os sinais luminosos do 9º, 15º e 20º andares acesos.

Às 13:11:25, o elevador sobe e para no 9º andar do edifício e, quatro segundos depois, a porta se abre e Miguel imediatamente sai do elevador. No exato instante em que Miguel deixa o elevador de serviço, no 9º andar, uma mulher ingressa no 31º andar, no mesmo elevador social em que ele se encontrava 1 minuto e 22 segundos antes.

Às 13:11:32, Miguel abre a porta corta-chamas, ao lado esquerdo da saída, e sai do alcance da câmera do elevador. Cinco segundos depois, a porta se fecha e os sinais luminosos do 15º e 20º andares seguem acesos. Às 13:12:33, Miguel aparece caindo na área do “lobby” (andar L). Um segundo depois, uma paleta de metal cai, logo após o menino sofrer o impacto da queda.

Nesse mesmo instante, Mirtes Souza, com o cachorro da patroa e o zelador, entra no elevador social. Ela demonstra apreensão e o zelador tenta consolá-la. O elevador desce para o subsolo e a mulher bate no peito, visivelmente nervosa. Ela, mostrando nervosismo, olha para o telefone celular e desce rapidamente no lobby. Às 13:14:12, o zelador e a mãe do garoto, com o cachorro, se aproximam de Miguel, caído ao chão.

O zelador vira o corpo dele e a mãe se desespera. Um encarregado e outro funcionário chegam ao local. Sari chega ao local da queda às 13:15:32 e, às 13:21:52, deixa o local da queda. Às 13:24:23, ela, já no 5º andar, ingressa no elevador de serviço. Ela retorna ao local da queda, onde mais pessoas se encontram. Ela consola a mãe do garoto, às 13:26:57, ingressa no elevador de serviço, retém a porta aberta enquanto Miguel é carregado para o interior do elevador.

Eles descem no andar P e Sari é a última a deixar o elevador.

Dois lados

Diante do indiciamento, a defesa da doméstica Mirtes Renata, mãe de Miguel, afirmou, por meio de nota, que Sari deverá prestar contas à Justiça e explicar frase e atitudes.

Os defensores da primeira-dama de Tamandaré acreditam que documento da polícia "conflita" com informações contidas nos autos.

Investigações

De acordo com investigadores ouvidos pela TV Globo, 20 depoimentos foram tomados pela polícia, ao longo da apuração do caso Miguel. Entre eles, estão os de pessoas que participaram do atendimento no Hospital da Restauração (HR), no Recife, além de policiais que registraram a ocorrência.

O depoimento de Sari Corte Real ocorreu na segunda-feira (29). A delegacia de Santo Amaro, responsável pelo inquérito, abriu duas horas mais cedo.

Por volta das 8h30, Mirtes Souza chegou à delegacia para falar com a ex-patroa. Após a conversa, Mirtes afirmou que Sari não demonstrou arrependimento pelo ocorrido.

A empregada doméstica entrou na delegacia e chegou a se encontrar com Sari Corte Real extraoficialmente. Na saída de Mirtes, houve tumulto e policiais buscaram conter a população que estava no local.

Depois de cerca de oito horas, Sari deixou a delegacia em um carro da polícia, sob gritos de "assassina" e mais protestos. O marido dela, prefeito de Tamandaré, Sérgio Hacker (PSB), saiu em seguida em outro carro.

Caso Miguel

Miguel morreu no dia na tarde do dia 2 de junho, quando a mãe dele havia descido do apartamento de Sari para passear com a cadela da família, a mando da patroa, e deixou o filho aos cuidados da primeira-dama. O menino entrou no elevador de serviço, e a empregadora da mãe parece apertar o botão que leva à cobertura.

Sozinho, Miguel apertou vários botões. Parou no sétimo andar, mas não desceu. Depois, ele subiu mais dois andares, saiu e abriu uma porta. Apenas um minuto depois, ele caiu no térreo. De acordo com a perícia, a queda foi de uma altura de 35 metros.

As câmeras de segurança do prédio também registraram que, antes de subir sozinho, Miguel entrou outras quatro vezes nos elevadores, e foi convencido por Sari a sair. No dia 8 de junho, os peritos do IC voltaram ao prédio e disseram que o caso foi acidental.

Sari, no dia da morte de Miguel, foi autuada em flagrante por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e pagou fiança de R$ 20 mil para responder ao processo em liberdade. Em nota enviada na época, o advogado afirmou que a ex-patroa de Mirtes está profundamente abalada e que é solidária ao sentimento da família.

Homenagens e protestos

O caso ganhou repercussão nacional, com manifestações de políticos e artistas na internet e criação de um abaixo-assinado virtual com mais de 2,5 milhões de assinaturas pedindo justiça.

No dia 12 de junho, durante um ato em frente ao prédio de onde Miguel caiu, manifestantes levaram cartazes com pedido de justiça e caminharam até a delegacia onde o caso é investigado. Eles exigiram que a ex-patroa da mãe do menino seja punida por homicídio doloso, quando há intenção de matar, e não culposo, como entendeu a polícia.

No dia 9 de junho, artistas pediram justiça em um protesto em barcos no Rio Capibaribe, no Recife. No dia anterior, 8 de junho, uma missa de sétimo dia foi celebrada virtualmente devido à pandemia da Covid-19.

No dia 7 de junho, outra homenagem a Miguel foi feita, mas em Tamandaré. Em 6 de junho, uma pintura com o rosto do menino foi feita na frente do prédio onde ocorreu o acidente. Em 5 de junho, um protesto reuniu centenas de pessoas em frente ao prédio onde vive a família dos ex-patrões de Mirtes, com forte participação do movimento negro.

Auxílio emergencial

O nome de Sari Gaspar Corte Real, primeira-dama de Tamandaré, aparece no portal Dataprev após um pedido de auxílio emergencial, benefício concedido durante a pandemia provocada pelo novo coronavírus.

Segundo o Dataprev, o auxílio emergencial foi solicitado no dia 14 de maio. O portal recebeu o pedido no dia seguinte. Os dois filhos de Sari, de 6 e 3 anos de idade, estão cadastrados como parte do grupo familiar.

Procurado pelo G1, o advogado de Sari Gaspar Corte Real, Pedro Avelino, informou por telefone que a solicitação de auxílio emergencial feita em nome dela é uma fraude.

Funcionárias-fantasma

Nesta quarta (1º), o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) entrou com uma ação civil pública contra Sérgio Hacker por improbidade administrativa. É que o gestor contratou a mãe e a avó de Miguel como servidoras públicas, pagas com dinheiro do município, embora elas trabalhassem na casa da família.

Em junho, o Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE) confirmou que a mãe e a avó de Miguel eram contratadas da Prefeitura de Tamandaré. Durante a apuração do caso, foi descoberta outra funcionária-fantasma que prestava serviços particulares à família do prefeito.

Os técnicos do TCE-PE fizeram uma visita à prefeitura de Tamandaré e constataram a contratação de Mirtes e Maria, além de Luciene Neves, que trabalha na casa de praia do prefeito. Segundo o o conselheiro do TCE, Carlos Porto, isso implica em improbidade administrativa por estar sendo usado servidores com recursos públicos em trabalhos particulares.

O prefeito Sérgio Hacker afirmou, em nota, que forneceu documentos ao TCE e ao Ministério Público de Pernambuco que demonstram que não houve prejuízo aos cofres públicos. Disse, ainda, que continuará contribuindo com as investigações.

 Texto e imagem reproduzidos do site: g1.globo.com

terça-feira, 30 de junho de 2020

CASO MIGUEL 06 > "Ela é um monstro", diz mãe sobre ex-patroa

Foto: Júlio Gome/Leia Já Imagens/Estadão Conteúdo 

Publicado originalmente no site do Portal TERRA, em 29 de junho de 2020   
  
Caso Miguel: "Ela é um monstro", diz mãe sobre ex-patroa

Sarí Corte Real, ex-empregadora de Mirtes Renata, falou à polícia sobre a morte do filho no Recife; houve protesto durante toda a manhã

Pedro Jordão

Mirtes Renata Santana, mãe de Miguel Otávio Santana da Silva, em frente à Delegacia de Santo Amaro, no Recife (PE), nesta segunda-feira, 29, dia de depoimento de Sarí Corte Real sobre a morte do garoto de 5 anos, que caiu do nono andar de um prédio do centro do Recife.

Mirtes Renata Santana, mãe de Miguel Otávio Santana da Silva, em frente à Delegacia de Santo Amaro, no Recife (PE), nesta segunda-feira, 29, dia de depoimento de Sarí Corte Real sobre a morte do garoto de 5 anos, que caiu do nono andar de um prédio do centro do Recife.

RECIFE - Sarí Corte Real, ex-patroa da mãe do menino Miguel Otávio Santana da Silva, morto no último dia 2 de maio, chegou à delegacia de Santo Amaro, no centro do Recife, por volta das 6 horas da manhã desta segunda-feira, 29, duas horas antes do início do expediente. Ela estava acompanhada do marido e prefeito de Tamandaré, no litoral sul de Pernambuco, Sérgio Hacker (PSB), de dois advogados e um motorista. A empregada doméstica e mãe de Miguel, Mirtes Renata Santana de Souza, chegou à delegacia pouco depois, por volta das 8 horas, acompanhada de alguns familiares. Ela também entrou na delegacia, mas não prestou depoimento. A população protestou durante toda a manhã, pedindo "justiça por Miguel".


O depoimento de Sarí Corte Real durou até as 12h, mas ela só saiu da delegacia depois das 14h30, escoltada pela polícia. A primeira a sair foi Mirtes Renata, mãe de Miguel, por volta das 13h. Ela falou com a imprensa, dizendo estar muito abalada e indignada com conversa extraoficial que teve com Sarí após o depoimento. "Todo o mundo viu que ela apertou o botão [do elevador], mas ela ficou dizendo que não apertou. Se fosse o filho dela, ela não teria feito aquilo. Ela não pediu desculpas, não pediu perdão por nada. Ela só disse que não tinha responsabilidade pela morte do meu filho", contou Mirtes.

"Ela não tem arrependimento nenhum, a cara dela mostra que ela não tem arrependimento pelo o que ela fez com o meu filho. Ela disse que eu estava na casa dela sem fazer nada. Eu estava trabalhando! Se eu estava ali sem fazer nada, por que ela me deixou lá, não deixou eu ir para a minha casa no meio da pandemia? Ela é fria, ela é um monstro, ela não é a mulher que eu conhecia, ela é ingrata. Disse que eu não tinha obrigação nenhuma com os filhos dela, mas eu cuidava dos filhos dela porque ela não dava atenção. Eu não reconheço Sarí, não é a mulher pra quem eu dediquei quatro anos da minha vida e minha mãe, seis. Ela é um monstro", disse Mirtes expressando indignação.

A mãe de Miguel ainda comentou sobre o contato dela, na delegacia, com o prefeito de Tamandaré, Sério Hacker (PSB), e o com pai dele, de mesmo nome. "Ele [o prefeito] disse que, qualquer coisa que a gente precisar da ajuda dele, ele está totalmente à disposição. Eu não tenho nenhum problema com ele. O pai dele também está aí e eu disse a ele: eu não tenho nada contra o senhor, seu Sérgio, nem o seu filho, nem a sua ex-mulher. O meu único problema é com Sarí. Ela errou com o meu filho, ela tirou a vida dele, então ela é quem tem que pagar. Eu não tenho nada contra a família, quem errou comigo foi ela".

Questionada pelo Estadão sobre abertura da delegacia horas antes do início do expediente, especialmente para o depoimento de Sarí Corte Real, a assessoria de comunicação da Polícia Civil de Pernambuco (PCPE) emitiu uma nota informando que os advogados de Sarí solicitaram a realização do depoimento mais cedo. "Considerando os argumentos relativos à possibilidade de aglomeração de pessoas e o risco de agressão à depoente por parte de populares, o delegado deferiu o requerimento. Saliente-se que esse deferimento não enseja nenhum prejuízo aos trabalhos de investigação levados a efeito pela Polícia Civil", disse o texto.

Mirtes Renata também falou sobre o assunto, declarando não acreditar que o delegado esteja favorecendo nenhum dos lados ao ter começado a ouvir Sarí Corte Real antes do início do expediente. "Sobre essa questão de a delegacia ter aberto mais cedo, na [última] quinta-feira ele [o delegado] me atendeu às 13h, que também não é horário de atendimento normal. Eles deixaram de almoçar para me atender, para ouvir a minha oitiva. Da mesma forma que eles abriram um pouco mais cedo para agilizar a questão da oitiva dela e o fim do inquérito. Ele só fez isso para agilizar, não houve preferência nenhuma da parte de ninguém, independente dela ser primeira-dama ou o que for. O delegado disse que vai concluir o inquérito e realizar uma coletiva de imprensa para esclarecer o caso", continuou Mirtes.

Ao ser questionada sobre o fato de Sarí ter sido indiciada por homicídio culposo, quando não há a intenção de matar, a mãe de Miguel disse que espera que o quadro mude ao fim do inquérito. "Isso vai se reverter. Ela vai pagar pelo o que fez com o meu filho".

Depoimento

O depoimento da primeira-dama de Tamandaré era o mais aguardado do caso, já que no dia da morte do menino ela não se pronunciou, mas foi indiciada por homicídio culposo, quando não há a intenção de matar. Na ocasião, Sarí Corte Real pagou fiança de R$ 20 mil para responder em liberdade. De acordo com o advogado dela, Pedro Avelino, Sarí não teria se pronunciado inicialmente porque estava muito abalada e sem a presença dos advogados. O segundo depoimento, realizado nesta segunda-feira, 29, só foi agendado após o delegado responsável pelo caso, Ramon Teixeira, ter acesso ao laudo da perícia feita pela polícia científica de Pernambuco no condomínio do Edifício Pier Maurício de Nassau, no centro do Recife.

Além de Sarí Corte Real, já prestaram depoimento o ex-síndico do prédio, um morador, o gerente de operações do condomínio (primeiro a prestar socorro a Miguel), a manicure que atendia Sarí, além de Mirtes Renata, que falou com a polícia duas vezes.

Protestos em frente à delegacia

Ao longo de toda a manhã, uma multidão foi se formando na frente da delegacia de Santo Amaro, no centro do Recife, aguardando a saída de Sarí Corte Real. As pessoas usaram gritos de ordem como "justiça por Miguel". De acordo com a tia do menino, irmã de Mirtes, Erilurdes de Souza, a família sabia que o depoimento seria prestado nesta semana e estavam organizando um protesto, mas não sabiam em que dia Sarí iria comparecer à delegacia. "A gente veio para Mirtes poder olhar para ela cara a cara. Nós imaginávamos que ela iria prestar depoimento ontem ou hoje. Estávamos com um protesto marcado para pressionar o delegado a tirar o culposo e indiciar ela como doloso. A gente quer justiça, que ela saia daqui naquele carro [da polícia] para o presídio. E queremos que o caso seja julgado por júri popular", sublinhou Erilurdes.

A avó de Miguel, Marta Santana, também esteve presente e chegou a entrar na delegacia a pedido de Mirtes. "Eu vim aqui para olhar para a cara dela. Isso não se faz com criança nenhuma. Nunca abandonei os filhos dela. Nada vai trazer Miguel de volta, mas pode aliviar. Por isso, queremos justiça", disse à imprensa.

Com a movimentação cada vez maior na frente da delegacia, entre gritos de ordem por Miguel e xingamentos para a primeira-dama de Tamandaré, a PCPE acionou outras equipes de polícia, que chegaram ao local para isolar a entrada da delegacia e proteger Sarí Corte Real de possíveis agressões. Em um primeiro momento, quando Mirtes Renata saia da delegacia, um policial chegou a ser truculento, com arma de fogo na mão, empurrando jornalistas e manifestantes para tentar dispersar os protestos.

Depois das 14h30, Sarí Corte Real saiu da delegacia escoltada por seguranças particulares e policiais até um carro da polícia. Nem ela e nem os advogados falaram com a imprensa. O carro dela e do prefeito, posicionado toda a manhã próximo à saída da delegacia, foi conduzido pelo motorista, enquanto os manifestantes batiam no carro e gritavam indignados. A tia de Miguel, Erilurdes de Souza, chegou a passar mal e desmaiar após se colocar na frente do carro, pedindo por justiça. Ela foi colocada em uma viatura, acompanhada de outra tia do menino. Os policiais informaram que iriam levá-la para algum hospital do Recife, mas não informaram qual.

Relembre o caso

No último dia 2 de maio, Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos, morreu depois de cair de uma altura de 35 metros, do nono andar de um prédio no centro do Recife. O menino era filho de Mirtes Renata Santana de Souza, que trabalhava como empregada doméstica na casa de Sarí Corte Real, primeira-dama do município de Tamandaré.

Sem ter com quem deixar o menino, a empregada o levou para a casa da patroa, tendo deixado-o sob a responsabilidade de Sarí ao descer para passear com a cachorra da família. O menino quis encontrar a mãe, mas Sarí teria deixado-o sozinho no elevador e apertado em um andar superior, enquanto Mirtes estaria no térreo. Sarí foi indiciada por homicídio culposo, quando não há a intenção de matar, mas pagou fiança de R$20 mil para responder em liberdade.

De acordo com o delegado responsável pelo caso, Ramon Teixeira, a polícia civil deve concluir o caso dentro do prazo mínimo de 30 dias, após ter colhido alguns depoimentos e receber o laudo pericial da polícia científica do Estado.

Texto e imagem reproduzidos do site: terra.com.br

quarta-feira, 24 de junho de 2020

CASO MIGUEL 05 > Imagens inéditas mostram o que aconteceu...

Empregada doméstica Mirtes Renata precisou levar o filho ao trabalho no dia do acidente
Foto: Reprodução/TV Globo

 Mãe e avó de Miguel moram juntas, agora sem o menino, mas na casa 
ainda cheia de recordações que ele deixou por toda parte
— Foto: Reprodução/TV Globo

 Miguel Otávio tinha 5 anos de idade e morreu ao cair de uma altura de 35 metros no Recife 
Foto: Reprodução/TV Globo

Vídeo mostra que menino entra no elevador de serviço e a patroa
 da mãe aperta o botão que leva à cobertura
 Foto: Reprodução/TV Globo

Publicado originalmente no site G1 GLOBO/PE, em 14/06/2020 

Caso Miguel: imagens inéditas mostram o que aconteceu no prédio de onde menino caiu minutos após a queda

Menino de 5 anos morreu após cair de uma altura de 35 metros, em 2 de junho. Além da mãe e da avó da criança, TCE descobriu outra funcionária-fantasma que prestava serviços particulares à família do prefeito de Tamandaré, Sergio Hacker (PSB).

Por Sabrina Rocha, TV Globo

Imagens inéditas obtidas pelo Fantástico mostram o que aconteceu no prédio no Recife de onde Miguel Otávio, de 5 anos, caiu do 9º andar, nos minutos seguintes à queda da criança (veja vídeo acima). O relógio marcava 13h13 do dia 2 de junho. Após um passeio rápido com a cachorra dos patrões, Mirtes Renata Santana de Souza, mãe do menino, pegou o elevador para subir de volta ao 5º andar, quando o zelador do edifício entrou avisando que alguém tinha acabado de cair do prédio.

O circuito de câmeras de segurança do prédio mostra que, logo que saíram do elevador, Mirtes e o zelador foram ao local da queda. "Chega deu aquela dor no peito. Ainda apertou no botão errado de tão nervoso que a gente ficou. Saí correndo puxando a cadela. Era meu filho que estava lá estirado no chão”, disse Mirtes.

O menino tinha caído dois minutos antes de uma altura de 35 metros. “Pedi tanto a Jesus e Nossa Senhora que tirasse minha vida e desse a ele. Nisso, veio o encarregado, segurou a mão de Miguel, ficou fazendo oração pedindo para Miguel respirar”, contou a mãe da criança.
  
O encarregado a que Mirtes se refere é o gerente de operações do condomínio, Tomaz Silva, que prestou depoimento à Polícia Civil na sexta-feira (12).

“Quem fez os primeiros socorros na criança fui eu. Foi uma cena muito triste, muito chocante. Infelizmente, eu senti o garoto indo embora. Ele apertou minha mão e eu dizendo a ele, aperta minha mão, aperta a mão do tio, a gente ainda vai jogar bola, reage, reage”, afirmou o funcionário após ser ouvido pelo delegado Ramon Teixeira, que investiga o caso.

Na entrevista exibida no Fantástico em 7 de junho, Mirtes relembrou tudo o que viveu naquele dia. Não pensou que podia ser o seu filho. Mas, ao chegar no local da queda, encontrou Miguel, único filho de Mirtes e único neto de Marta Maria Santana Alves.

Mãe e avó do menino moram juntas, agora sem o menino, mas a casa ainda está cheia de recordações que ele deixou por toda parte. “As paredes estão um pouco descascadas porque ele pegava as ferramentazinhas e queria brincar de pedreiro”, contou Mirtes.

Miguel brincava muito em todos os cantos da casa e na frente dela. Andava de patinete, de bicicleta, jogava bola. Só não gostava de ficar preso em casa. Quando Mirtes precisava sair e por algum motivo não podia levar o filho, ele aprontava.

“Subia na grade, ficava gritando mamãe, me leva, me leva. Escalava a grade, ficava balançando a grade direto. Era cheio de energia”, declarou a mãe.

No dia 2 de junho, a mãe precisou levá-lo com ela para o trabalho. “Eu disse: ‘Sari, vou descer com Mel porque já passou um pouquinho do horário dela descer. Miguel ficou chorando um pouquinho. Eu disse: ‘Não, filho, fica aí que, daqui a pouco, mamãe volta’. Eu disse a ele ‘mamãe já volta’ três vezes”, disse.

Mirtes contou que Miguel ainda estava com pulsação. Ela deitou ao lado dele. Um minuto depois da queda, a patroa de Mirtes chegou ao local. Sari Corte Real é casada com Sérgio Hacker (PSB), prefeito do município de Tamandaré, no Litoral Sul de Pernambuco. A patroa olhou pra cima, conversou com o funcionário, falou com Mirtes e levou as mãos ao rosto.

“Um morador lá do prédio, ele é médico, foi lá, olhou meu filho e disse ‘ele tá vivo ainda, ele precisa ser socorrido logo’. A minha ex-patroa disse ‘a gente leva, a gente leva’", afirmou Mirtes.
Sari subiu para pegar a chave do carro. Três minutos depois, ela desceu. O elevador parou no térreo e ela demorou a sair. Em seguida, foi até Mirtes, a quem consolou com um abraço. “Aí pegaram Miguel com todo cuidado do mundo”, disse a mãe do menino.

E desceram até a garagem para colocá-lo no carro. O menino chegou vivo ao Hospital da Restauração, no bairro do Derby, no Centro do Recife, mas não resistiu aos ferimentos e morreu na unidade de saúde.

Um vídeo divulgado no dia seguinte revelou como Miguel chegou até o 9º andar do edifício. O menino entrou no elevador de serviço, e a patroa da mãe aperta o botão que leva à cobertura. Sozinho, ele apertou vários botões. Parou primeiro no sétimo andar, mas não desceu. Subiu mais dois andares, saiu e abriu uma porta. Apenas um minuto depois, ele caiu no térreo.

“Ela [a patroa] disse, no hospital, que ele tinha fugido do apartamento e estava driblando ela. Que entrou no elevador e não deu tempo dela segurar a porta”, disse Mirtes, emocionada.

Sari foi autuada em flagrante por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e pagou fiança de R$ 20 mil para responder ao processo em liberdade. Em nota, o advogado afirmou que a ex-patroa de Mirtes aguarda a intimação para depor e que ela está profundamente abalada e que é solidária ao sentimento da família.

As câmeras de segurança registraram que, antes de subir sozinho, Miguel entrou outras quatro vezes nos elevadores e foi convencido por Sari a sair.

“A assistente social veio falar para fazer a ficha de Miguel e eu fui. Fiz a ficha, ela pegou minha identidade, perguntou como tinha sido. Quando foi depois, a enfermeira pediu para sentar. Aquela dor no meu peito foi apertando, apertando mais ainda. Ela disse que meu filho não resistiu. Que meu filho não tinha resistido. Agora só me resta é a dor. Não vou ter mais meu filho junto de mim. Os planos que fazia pro meu filho foram interrompidos por uma falta de paciência”, contou Mirtes.

A manicure que estava atendendo Sari em casa no momento da queda de Miguel também prestou depoimento à polícia na sexta-feira (12), mas não quis dar entrevista. Na segunda-feira (8), os peritos voltaram ao prédio e foram categóricos: “Foi acidental”, disse o perito criminal André Amaral, do Instituto de Criminalística de Pernambuco.

A porta que ele abriu dá em um corredor com uma janela. É o único acesso à área de onde ele caiu. Segundo a perícia, o menino escalou a janela e usou a condensadora de ar-condicionado como escada para descer do outro lado. Depois, subiu na grade. Uma das hastes se soltou. Ele se desequilibrou e caiu.

O condomínio de luxo, no Centro do Recife, é um dos metros quadrados mais caros da capital pernambucana. Tem 126 metros de altura. São 38 andares. Cada um com dois apartamentos de quase 250 metros quadrados.

A área que o Miguel acessou é chamada de laje técnica, que é uma varanda pequena, do lado de fora de cada apartamento, onde ficam as condensadoras -- aquela parte externa do ar-condicionado. Além de evitar a poluição visual da fachada, esse espaço é mais seguro para os técnicos que fazem a manutenção do equipamento.

O menino caiu da laje técnica do 9º andar. No 7º andar, onde o elevador abriu primeiro, mas ele não saiu, a área tem uma tela de proteção.

Em nota, a polícia afirmou que só vai se pronunciar quando o inquérito for concluído. O prazo é de até 60 dias.

Outra funcionária-fantasma

O Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE) confirmou que a mãe e a avó de Miguel eram contratadas da Prefeitura de Tamandaré. Durante a apuração do caso, foi descoberta outra funcionária-fantasma que prestava serviços particulares à família do prefeito.

Os técnicos do TCE-PE fizeram uma visita à prefeitura de Tamandaré e constataram a contratação de Mirtes e Maria, além de Luciene Neves, que trabalha na casa de praia do prefeito.

“Implica em improbidade administrativa por estar sendo usado servidores com recursos públicos em trabalhos particulares”, afirmou o conselheiro Carlos Porto, do Tribunal de Contas do Estado (TCE).

O prefeito Sérgio Hacker afirmou, em nota, que forneceu documentos ao TCE e ao Ministério Público de Pernambuco que demonstram que não houve prejuízo aos cofres públicos. Disse, ainda, que continuará contribuindo com as investigações.

“Eu queria que tudo isso acabasse logo, fosse logo resolvido, pra tentar aliviar um pouco a dor que eu sinto. Porque isso tudo tá doendo muito. Tá doendo muito no meu coração. Que realmente seja feita justiça”, declarou a mãe de Miguel.

Auxílio emergencial

O nome de Sari Gaspar Corte Real, primeira-dama de Tamandaré, aparece no portal Dataprev após um pedido de auxílio emergencial, benefício concedido durante a pandemia provocada pelo novo coronavírus.

Segundo o Dataprev, o auxílio emergencial foi solicitado no dia 14 de maio. O portal recebeu o pedido no dia seguinte e, até a manhã da terça (9), o requerimento está “em processamento”. Os dois filhos de Sari, de 6 e 3 anos de idade, estão cadastrados como parte do grupo familiar.

Procurado pelo G1, o advogado de Sari Gaspar Corte Real, Pedro Avelino, informou por telefone que a solicitação de auxílio emergencial feita em nome dela é uma fraude.

Protestos e homenagens

O caso ganhou repercussão nacional, com manifestações de políticos e artistas na internet e criação de um abaixo-assinado virtual com mais de 2,5 milhões de assinaturas pedindo justiça.

Na sexta-feira (12), durante um ato em frente ao prédio de onde Miguel caiu, manifestantes levaram cartazes com pedido de justiça e caminharam até a delegacia onde o caso é investigado. Lá, exigiram que a ex-patroa da mãe do menino seja punida por homicídio doloso, quando há intenção de matar, e não culposo, como entendeu a polícia.

Na terça-feira (9), artistas pediram justiça em um protesto em barcos no Rio Capibaribe, no Recife. No dia anterior, a segunda-feira (8), uma missa de sétimo dia foi celebrada virtualmente devido à pandemia da Covid-19.

No dia 7 de junho, outra homenagem a Miguel foi feita, mas em Tamandaré. Em 6 de junho, uma pintura com o rosto do menino foi feita na frente do prédio onde ocorreu o acidente. Em 5 de junho, um protesto reuniu centenas de pessoas em frente ao prédio onde vive a família dos ex-patrões de Mirtes, com forte participação do movimento negro.

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com/pe

domingo, 14 de junho de 2020

CASO MIGUEL 04 > (...) Marcas da sandália... ficam em equipamento...

Foto: Reprodução/TV Jornal

Texto publicado originalmente no site da TV JORNAL, em 5 de junho de 2020 

Caso Miguel: Marcas da sandália da criança ficam em equipamento escalado antes da queda no Recife

O menino Miguel, de 5 anos, morreu após cair de uma altura de 35 metros na última terça-feira (2), no prédio em que a mãe trabalhava como empregada doméstica. O caso teve repercussão nacional

Nas imagens, é possível perceber as marcas da sandália 
que menino usava em um dos condensadores 

Nesta sexta-feira (05), a produção da TV Jornal conseguiu um vídeo que mostra o local por onde passou o garoto Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos, antes de cair do 9º andar, na última terça-feira (2), do condomínio de luxo Píer Maurício de Nassau, conhecido como Torres Gêmeas, no bairro de São José, na área central do Recife, onde a mãe trabalhava como empregada doméstica.

>>Faltou paciência para tirar meu filho do elevador, diz mãe de criança que morreu ao cair de prédio no Recife

Após sair do elevador de serviço no 9º andar do prédio, procurando pela mãe, Miguel abriu a porta que dá acesso ao hall onde ficam os condensadores de ar condicionado. Em seguida, ele caminhou pelo corredor e sobe em uma janela. Nas imagens, é possível perceber as marcas da sandália que menino usava em um dos condensadores.

Ele teria passado pelos equipamentos, ido até a grade de proteção e pisado em uma das hastes, que não aguentou o peso, quebrando. Foi então que ele caiu de uma altura de 35 metros.

Governador de Pernambuco se pronuncia

O Governador de Pernambuco, Paulo Câmara, falou sobre a morte do menino. Em mensagem divulgada nas redes sociais, ele afirmou que a investigação e esclarecimento do caso “devem acontecer no prazo mais breve possível”.

Reações

A morte do menino miguel também gerou reações de diversas instituições no Estado. O coletivo Rede de Mulheres Negras de Pernambuco chamou a atenção para a questão racial do crime.

Não foi mera fatalidade

Segundo o Gabinete de Assessoria Jurídica ás Organizações Populares (Gajop), a morte da criança não foi uma mera fatalidade e que o fato da mãe estar trabalhando durante a pandemia por si só já era uma irregularidade. O gabinete se colocou à disposição pra ajudar judicialmente a família.

Ajuda à patroa

Abalada a mãe de Miguel, Mirtes Renata, desabafou sobre os últimos momentos com o filho e disse que quando viu o corpo do menino caído no chão do prédio chegou a pedir ajuda à patroa.

Repercussão

O Caso do menino Miguel repercute no mundo inteiro e pelas redes sociais vários artistas prestam solidariedade a mãe e a família do garoto. A #justiçapormiguel alcançou o primeiro lugar entre os assuntos mais comentados em todo o Brasil. A cantora Marília Mendonça expressou pelo twitter a revolta com o caso.

A apresentadora do SBT, Maísa, divulgou o link de uma petição online cobrando justiça. O documento já conta com um milhão de assinaturas.

Pai de Miguel faz questionamento

A tristeza que tomou conta da mãe do menino Miguel Otávio Santana da Silva não foi menor para o pai. Indignado com a perda do filho. Ele cobrou mais investigações sobre o caso e quer que a dona do apartamento onde a mãe do menino trabalhava explique tudo o que aconteceu.

‘’A gente vai correr atrás (de justiça). Hoje foi meu filho, estou com dor, mas vamos correr atrás e descobrir o que houve. Vamos querer saber tudo. A patroa dela tem que explicar. Tem que explicar por que deixou o menino só? Por que não deixou o (filho) dela só e deixou o meu?’’, questionou. 

Mãe e avó de Miguel

Sonho em ser jogador de futebol

As recordações de Miguel Otávio Santana da Silva estão vivas nas mentes de quem conviveu com a criança. Na escola onde o garoto estudava, desde o maternal, todos sabiam que o sonho dele era ser jogador de futebol. No caderno dele, ficaram gravadas as primeiras letras de uma história que foi interrompida.

Liberada após fiança

Na quarta-feira (3), a Polícia Civil autuou a patroa em flagrante pelo crime de homicídio culposo, quando não há intenção de matar. A mulher, que era empregadora da mãe de Miguel, teve a identidade preservada e foi parcialmente responsabilizada pela morte da criança.

Como previsto em lei, ela pagou fiança - determinada pelo delegado Ramón Teixeira em R$ 20 mil - e foi liberada. As primeiras investigações apontaram que a mulher teria permitido que o garoto subisse sozinho no elevador antes de cair do 9º andar - uma altura de 35 metros.

De acordo com a polícia, as imagens das câmeras de segurança foram a principal prova da "negligência" da mulher, como a polícia definiu. No entanto, a investigação descartou qualquer relação da moradora com a queda da criança e o que provocou a sua morte.

>>Empregada doméstica, mãe de Miguel, consta como funcionária da Prefeitura de Tamandaré
Confira a íntegra da entrevista com a mãe de Miguel

TV Jornal: Mirtes, a gente sabe que é um momento difícil. Qual o sentimento hoje?

Mirtes: O sentimento que prevalece em mim é dor. Dor pela perda do meu filho, e só. Não sinto raiva, ódio, depois que vi os vídeos, não. Só sinto uma dor muito forte no peito. Meu coração está sangrando pela perda da minha vida. Do amor da minha vida.

TV Jornal: Como era Miguel?

Mirtes: Miguel era uma criança extrovertida, extremamente feliz. Como criança ele tinha tudo, eu dava educação, saúde, vestuário, o que fosse necessário para o meu filho, eu dava. Eu deixava faltar para mim, mas para ele não deixava faltar nada. E tinha planos para o futuro dele. Mas infelizmente os planos do futuro para o futuro do meu filho foram interrompidos.

TV Jornal: Mirtes, você sabia que o Miguel estava no elevador no momento desse incidente?

Mirtes: Não. Quando eu saí do apartamento, eu deixei ele dentro do apartamento. Antes de sair, disse para minha patroa que não iria levar as crianças para passear com a cadela porque eles aperrearam. Eu disse que, por não terem se comportado, eu não iria levar. E, se depois eles obedecessem, de tardezinha eu levaria.

A menina (a filha dos patrões) se conformou, mas meu filho não se conformou, ficou chorando. Ela disse que eu fosse, que ela ficaria com Miguel

TV Jornal: Quem era a menina?

Mirtes: A filha da minha patroa.

TV Jornal: Eles costumavam brincar juntos quando você estava trabalhando?

Mirtes: Sim, sim, eles tinham um bom convívio, brincavam bastante. Normal de criança, brincar, aperrear...

TV Jornal: Pelas imagens, dá para perceber que a patroa foi até o elevador; ela teria saído do apartamento e ido ao elevador. Você tinha ciência disso?

Mirtes: Tinha. Que ela foi atrás de Miguel. Ontem, quando eu vi o vídeo, entendi o motivo da revolta que houve no velório do meu filho. Antes disso, eu não tinha visto nada. Porque quando eu estava na delegacia e os vídeos chegaram, eu não quis ver porque não estava em condições de ver nada

TV Jornal: Diante das imagens que você viu, você tirou alguma conclusão?

Mirtes: A conclusão que eu tirei é que, infelizmente, faltou um pouco de paciência dela para tirar meu filho de dentro do elevador. Se ela tivesse tido um pouquinho de paciência, tivesse pegado ele pela mão, antes de ficar só falando, meu filho hoje estaria comigo.

TV Jornal: Você me falou que ele costumava passar alguns dias numa casa de praia em Tamandaré. Ele teria chegado essa semana. Ele passou na sua casa, inclusive, você até mostra aqui uma bicicleta que ele gostava muito de brincar.

Mirtes: Ele gostava muito, ele estava com saudade da bicicleta dele.

TV Jornal: Vocês chegaram na segunda e, antes de ir para o apartamento na terça, ele passou aqui para brincar um pouco.

Mirtes: Na segunda-feira quando ele passou aqui, o pneu tava murcho, a gente passou na casa da vizinha, ela encheu o pneu dele, e ele ficou durante a noite na rua brincando, com os amigos dele na rua.

TV Jornal: (À Marta, avó de Miguel): Seu filho-neto, seu único neto, que a senhora tinha como filho. O que a senhora está sentindo nesse momento, o que é que a família mais quer agora?

Marta: Eu estou sentindo muita dor. É dor. Meu coração esta sangrando. E tudo que eu quero é só justiça. Só justiça mesmo.

TV Jornal: Mirtes, em relação ao boletim de ocorrência, você está com ele? Foi entregue à você?

Mirtes: Não me entregaram o boletim de ocorrência. Eu assinei três vias e não me entregaram nada. Só me pediram para aguardar do lado de fora, que dois policiais iriam me trazer em casa. Foi o que fizeram, a mim não me entregaram nada.

TV Jornal: Agora é só esperar.

Mirtes: Agora é só esperar, pela Justiça de Deus e do homem.

O acidente

De acordo com o perito André Amaral, as imagens do circuito interno de segurança mostram que a criança saiu do quinto andar, entrou no elevador sozinho e subiu até o nono andar. Lá, ele teve acesso ao hall de serviço onde fica o condensador de ar condicionado. Ainda segundo o perito, o menino teria escalado o guarda peito de metal e caiu de uma altura de 35 metros. “Tinha marca de sandália e caracteriza de 1,20 m que é a altura da vítima”, disse. “Na área de acesso lá [no 9º andar], a janela estava aberta, não tinha nenhuma proteção, qualquer pessoa tem acesso, mas não era uma coisa comum ter um acesso a uma criança naquele trecho (...) Verificamos que se trata de uma natureza acidental”, completou. Testemunhas relataram que o menino estava procurando a mãe, ainda conforme o perito.

O corpo da vítima foi liberado do Instituto de Medicina Legal (IML) na manhã desta quarta-feira (3) e o sepultamento aconteceu nesta tarde no cemitério de Bonança, distrito de Moreno, cidade da Região Metropolitana do Recife.

Depoimentos

A mãe de Miguel prestou depoimento na Delegacia de Santo Amaro, ainda na terça-feira. Os patrões dela também foram ouvido, além de um representante da empresa que instalou as câmeras de segurança do prédio.

Após ser ouvida, Mirtes foi levada para a casa de familiares em Jaboatão dos Guararapes. Os donos do apartamento saíram horas depois. Eles montaram um esquema para deixarem a delegacia em dois carros e não responderem às perguntas da imprensa.

Texto reproduzido do site: tvjornal.ne10.uol.com

sexta-feira, 12 de junho de 2020

CASO MIGUEL 03 > (...) invisibilidade das tantas Mirtes do Brasil


Publicado originalmente no site VERMELHO, em 4 de junho de 2020

A morte de Miguel e a invisibilidade das tantas Mirtes do Brasil

Mirtes Renata seria só mais uma mulher preta, mãe solteira, se virando para sobreviver no dia a dia bruto desse mundo desigual, se não fossem os tristes acontecimentos daquela tarde. Em dia de protestos antirracistas, foi a tragédia que tirou a invisibilidade de Mirtes e Miguel.

Por Ana Cristina Santos

Terça-feira, 2 de junho de 2020. O Brasil virtual atinge pico de postagens contra o racismo. Mirtes saiu cedo para pegar no batente. Ela é empregada doméstica, trabalha em um dos apartamentos do prédio Píer Maurício de Nassau, no bairro de São José, região central do Recife. As famosas “Torres Gêmeas”, ícone controverso do jeito de viver da elite pernambucana. Pela mão leva o filho Miguel, de cinco anos, através dos muitos quilômetros que separam a periferia do centro. Não há creche, estão fechadas por conta da pandemia da Covid-19 que há mais de três meses atinge o país.

Mirtes Renata seria só mais uma mulher preta, mãe solteira, se virando para sobreviver no dia a dia bruto desse mundo desigual, se não fosse a tragédia que aconteceu naquela tarde. Ela saiu para passear com os cachorros da sua patroa. Miguel ficou no apartamento, sob a responsabilidade de Sarí, a patroa, que fazia as unhas com manicure atendendo em domicílio. O menino chora para ir encontrar com a mãe, faz birra (um clássico da fase dos cinco anos. Quem tem filho sabe). Corre para o elevador. Sarí desiste de evitar. Aperta algum botão do elevador e deixa que o menino se vá. Ele sobe até o sétimo andar, depois até o nono e desembarca. No gradil do hall de máquinas se debruça, possivelmente procurando ver a mãe, e cai. Miguel foi socorrido, mas não chegou com vida ao hospital.

Sarí Gaspar Corte Real foi autuada em flagrante, por negligência, e saiu após pagar fiança de 20 mil reais. A partir desse momento, para a imprensa pernambucana ela seria apenas a patroa, a empregadora, a mulher que não teve sua identidade revelada. O vídeo com as evidências em um primeiro momento não foi divulgado, apesar de ser citado em detalhes, acompanhado de um elogio ao trabalho da perícia que refez o passo a passo do que aconteceu na hora que o elevador parte do quinto andar, com Miguel, sozinho ali dentro. Mas ele continua passando na minha cabeça desde que soube desse fato, se repetindo, e o rosto de Miguel é o rosto do meu menino preto, aos cinco anos de idade. É o sorriso do meu menino que vejo se esvaindo, por 35 metros, até o fatídico encontro com o chão.

Mirtes Renata Santana da Silva, a empregada, a mãe do menino que caiu. É fácil encontrar seu nome e perfil nas redes sociais. Não há um adjetivo para descrever a mãe que perde um filho, penso nisso enquanto escrevo este artigo. Talvez porque não haja como descrever o tipo de dor, mesmo que as mães da periferia a conheçam tão bem. Nas fotos ela, tão jovem, sempre sorri. E corre. E brinca carnaval. E agradece a Deus e às outras mulheres de sua vida a oportunidade de celebrar com festa os cinco anos do seu filhinho. E eu leio ali sororidade, resiliência, e a solidão que embala a vida das mulheres negras. E isso também me dói.  Mirtes é a mulher jovem que emoldura sua foto do Facebook com um bem-humorado apelo para que as pessoas fiquem em casa. Ela não pode ficar porque para muitos, no nosso país de herança escravocrata, serviço doméstico é essencial e ela tem que escolher a melhor estratégia para sobreviver.

No Brasil 6,356 milhões de pessoas sobrevivem trabalhando nos serviços domésticos. 97% delas são mulheres, em sua maioria negras e com baixa escolaridade. Dessas, apenas 1,757 milhão atuavam com carteira assinada.  Os dados são da última divulgação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). A informalidade continua sendo traço principal no serviço doméstico, embora desde abril de 2013, esse trabalho seja regulamentado por lei. Um conjunto de normas para a profissão, incluindo obrigações de empregadores, foi sancionada em 2 de junho de 2015. O pior dia da vida de Mirtes aconteceu exatamente cinco anos depois da sanção da Lei que deveria garantir dignidade e segurança ao seu labor.

A resistência à regulamentação do serviço doméstico no Brasil vai além de questões econômicas, é um dos piores traços do racismo estrutural que nos adoece cotidianamente. É cunhada sob a mesma lente maldita que embrutece o olhar sobre corpos negros. Que naturaliza as balas perdidas dentro da van, dentro de casa, na camisa do uniforme da escola. Que relativiza os segundos que uma pessoa pode aguentar sem respirar. Que transforma pinho sol em arma química. Que faz algumas vidas importarem menos que outras. A mesma lente que embota os olhos de quem vê uma criancinha de cinco anos e por conta da cor da sua pele não pensa que como qualquer outra, ela só precisa de um colo, de uma distração ou de alguns minutos de atenção e cuidado.

Miguel Otávio Santana da Silva será mais um nome na nossa revolta, no nosso inconformismo e será só isso se não formos capazes de trazer ao mundo real desdobramento para as hashtags. Se não refletirmos sobre o racismo que está no nosso DNA como nação, como sociedade, mas também nos pequenos gestos do nosso cotidiano.  Superar o racismo só será possível se tivermos condições de reconhecer privilégios, de rever atitudes costumazes, mas principalmente, depende da nossa capacidade de pensar conjuntamente questões como economia e raça, entendendo que classe tem cor e que essa é uma relação estrutural impossível de ser analisada a partir da fragmentação.

A história de Mirtes, para além da tragédia e do horror que pontuou sua Blackout Tuesday, continuará naturalizada e anônima enquanto insistirmos em olhar esse fato como a história de uma mulher e não de milhares de mulheres, como uma notícia extraordinária de jornal, enquanto pensarmos que punir uma pessoa, atendendo nosso justo e sazional desejo de justiça, resolverá essa dor lancinante que cala no peito do povo negro dia após dia, através dos séculos. 

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* Ana Cristina Santos - Jornalista, pesquisadora sobre comunicação alternativa e popular e doutoranda em Comunicação na Universidade de Brasília.

Texto e imagem reproduzidos do site: vermelho.org.br